Uma das discussões mais acaloradas, durante o módulo da disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa na Especialização em História Cultural, foi sobre a questão da ideologia. Para alguns o uso das noções de imaginário e representações suplantavam a questão da ideologia.
Naquele contexto e dentro de nossas possibilidades tentei apresentar como tais noções não eram excludentes e que na verdade o que acontecia era um jogo, uma disputa, entre concepções e perspectivas historiográficas que mais uma vez passava pelo desconhecimento, pela crítica pela crítica, enfim. A defesa portanto da idéia de ideologia contra suas sucessoras, foi e é um mau-entendido.
Talvez o livro "Um mapa da ideologia" organizado por Slavoj Zizek contribua para entendermos melhor a noção de ideologia e quem sabe compreender as relações não excludentes com as noções de representação e imaginário.
Abaixo comentário de César Benjamin sobre o livro:
Textos clássicos e contemporâneos sobre o conceito de ideologia, complementares ou divergentes, em alguns casos francamente polêmicos entre si, foram reunidos por Zlavoj Žižek, professor dos departamentos de Filosofia e Sociologia da Universidade de Liubliana (Eslovênia), para este volume inaugural de uma série que pretende "mapear" as questões decisivas da teoria social do nosso tempo. Muitos poderão indagar por que justamente este tema foi o primeiro escolhido. "Ideologia" não é um conceito fora de moda? Não vivemos em um mundo "pós-ideológico"? Não é mais importante discutir a realidade em si mesma, tal como é?
Deixemos que o próprio Žižek responda, mesmo que de forma indireta: "Um dos estratagemas fundamentais da ideologia é a referência a alguma evidência: ‘Olhe, você pode ver por si mesmo como são as coisas!’ ou ‘Deixe os fatos falarem por si!’ talvez constituam a arquiafirmação da ideologia, considerando-se justamente que os fatos nunca ‘falam por si’, mas são sempre levados a falar por uma rede de mecanismos discursivos (...). A análise do discurso talvez mostre seu ponto mais forte ao responder precisamente a essa questão: quando um inglês racista diz que ‘há paquistaneses demais nas nossas ruas!’, como – de que lugar – ele ‘vê’ isso; ou seja, como se estrutura seu espaço simbólico para que ele possa perceber como um excesso perturbador o fato de um paquistanês andar por uma rua de Londres? Em outras palavras, devemos ter em mente aqui o lema de Lacan de que no real não falta nada: toda percepção de uma falta ou de um excesso (‘não há bastante disso’, ‘há demais daquilo’) implica um universo simbólico."
Esse universo simbólico é inerente ao homem, constitutivo do homem, específico do homem. Regula, em última instância, a relação entre o imaginável e o inimaginável, o possível e o impossível. Nos permite agir, ou não agir, porque fornece as interpretações, conscientes ou não, de que necessitamos para tal ou qual decisão. Quando essa matriz fundamental – ideológica – se torna invisível, a ideologia não acabou. Ao contrário, experimentou seu mais completo triunfo (embora, por definição, sempre efêmero).
Depois de reconstruir o desenvolvimento do conceito de ideologia na moderna ciência social e ressaltar suas múltiplas faces, Žižek passa a palavra a artigos já clássicos – os de Lacan e Althusser –, a um surpreendente conjunto de textos de Adorno, inéditos até 1993, e a uma cuidadosa seleção de autores, contemporâneos. Terry Eagleton, Peter Dews e Seyla Benhabib avaliam as contribuições decisivas da Escola de Frankfurt e de Lukács. Michel Pêcheux nos revela uma tradição diferente, a dos pós-estruturalistas franceses. Segue-se o famoso debate sobre a "tese da ideologia dominante", no qual Nicholas Abercrombie, Stephen Hill, Bryan Turner e Göran Therborn trabalham na intersecção de temas gramscianos e althusserianos. Pierre Bourdieu mostra seu distanciamento dessa tradição numa entrevista com Eagleton, enquanto Richard Rorty, refletindo sobre o feminismo, imagina outras possibilidades de transformação social. Michèle Barret relê Gramsci, Laclau e Mouffe, e Fredric Jameson oferece uma exposição magistral sobre a ideologia no capitalismo tardio. O volume termina com mais um ensaio notável do próprio Žižek, que ressalta e compara as sutilezas das análises clássicas da forma-mercadoria, por Marx, e do sonho, por Freud e Lacan.
Seja pela qualidade de cada contribuição, seja pelo caráter abrangente que a coletânea adquire,Um mapa da ideologia é um livro único, surpreendente, desconcertante, que reúne o que há de melhor na ciência social contemporânea.
César Benjamin
O livro foi lançado no Brasil pela editora Contraponto e pode ser encontrado neste endereço: http://www.contrapontoeditora.com.br/produtos/detalhe.php?id=89