"Trata-se, antes de tudo, de pensar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo." (PESAVENTO, 2003, p. 15)
Neste caso o que os historiadores do cultural fazem é interpretar estes significados a partir de determinados cojuntos de valores e perspectivas estabelecidas pelo presente, em geral lançam mão de determinadas noções como representação, imaginário, sensibilidades.
Há com a História Cultural um rompimento com as certezas metodológicas da escola dos annales. Através do abandono do projeto de história total, da definição territorial do objeto e da primazia atribuída às divisões sociais.
Para Pesavento a História Cultural estabelece uma perspectiva que coloca em dúvida a própria coerência do mundo.
(...) A História se faz como resposta a perguntas e questões formuladas pelos homens em todos os tempos. (...) explicação sobre o mundo, reescrita ao longo de gerações. O historiador explica, em esforço retórico e pedagógico, imprimindo sentidos ao seu discurso. Na busca de construir uma forma de conhecimento sobre o passado, o historiador dá a ler este passado, decifrando-o e dotando-o de uma inteligibilidade. O trabalho da História é sempre o de dar a ver um Outro, resgatando uma diferença. (PESAVENTO, Idem, p. 59)
Para Pesavento a História seria uma ficção controlada pois este Outro construído através do discurso histórico é percebido através de certas operações mentais que lidam com "a comparação e a analogia, com a diferença e a inversão, com o inusitado" (Idem, p. 61). Este processo seria submetido à testagem dos indícios recolhidos e que sustentam um regime de verdade que visa estabelecer plausibilidade. A História seria assim uma ficção pela recorrência ao extratexto.
A partir desta transformação epistemológica poderemos pensar em algumas estratégias do fazer História, Sandra Pesavento nos chama a buscar um método. Porém, o que ela faz é apresentar métodos possíveis para esta História Cultural; busca as estratégias do fazer história cultural nos trabalhos do antropológo Clifford Geertz, a descrição densa; no paradigma indiciário, da micro-história de Carlo Ginzburg; além do método da montagem de Walter Benjamin.
O método geertziano segundo Pesavento contribui para que possamos "explorar as fontes nas suas possibilidades mais profundas, fazendo-as falar e revelar significados"(Idem, p. 66). Através da descrição densa o historiador poderá explorar todas as possibilidades interpretativas, ao aprofundar a análise do mesmo, relida através de um intenso cruzamento de outros elementos que deverão ser observados no contexto e fora dele.
Com Carlo Ginzburg o paradigma indiciário fornece da mesma forma um método interpretativo "centrado sobre resíduos, sobre os dados marginais, considerados reveladores (...) pormenores normalmente considerados sem importância, ou até triviais, "baixos", forneciam a chave para aceder aos produtos mais elevados do espírito humano" (GINZBURG, 1989, pp. 149-150). Esse paradigma uniria aspectos dos saberes do caçador, do detetive, do médico e do crítico de arte. O saber de tipo venatório que ensina ao historiador a farejar, registrar, interpretar e classificar "pistas infinitesimais", inferindo as causas a partir dos efeitos. O saber conjetural, que estabelece um conhecimento indireto, através de indícios aos quais o historiador inquire em busca do sentido. Assim, movido pela suspeita o historiador enfrenta o passado com atitude dedutiva, não se atendo ao primeiro plano, ao visível, mas procura nos detalhes elementos reveladors de fenômenos gerais: "a visão de mundo de uma classe social, de um escritor ou de toda a sociedade" (GINZBURG, Idem, p. 178). Tal paradigma indiciário, não possui regras passíveis de formalização ou de serem ditas, pois segundo Ginzburg o que entra em jogo são alguns elementos imponderáveis: faro, golpe de vista, intuição.
Por fim, dentro da tentativa de buscar um método, Pesavento nos remete a Walter Benjamim e seu método da montagem. Constituída pela ensaística cinematográfica que Benjamim desenvolveu, cujo artíficio mais importante foi a fusão de duas imagens, onde ao trabalhar com a opacidade e a transparência, buscou revelar o que foi apagado. Seu método se opõe ao método historicista, e se define como materialista histórico, é o método dialético, sob o qual o passado deveria ser fixado através do presente, estabelecendo uma síntese (despertar a consciência) das imagens de sonho que encerravam a antíntese (imposições e proposições que o sistema capitalista quer nos fazer desejar) e tese (aquilo que desejamos). Das ruínas e escombros do passado, dos custos do progresso emergem a história dos excluídos, dos perdedores, justamente da mercadoria, o produto final da exploração capitalista, seria resgatado os sonhos das gerações passadas massacradas pelo sistema do mercado consumidor.
Em linhas gerais, essas diversas estratégias apresentadas aqui a partir da proposta de Pesavento possibilitam perceber a amplitude e relatividade da metodização histórica, cabendo a cada pesquisador escolher e sobretudo desenvolver seu método de análise a partir do diálogo entre suas hipóteses e as evidências com as quais trabalha. Assim, o método não deve ser visto como algo fixo, mas sim uma construção dialógica e definida durante o trabalho de pesquisa.
Referência:
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
GINZBURG, Carlo. 'Sinais: raízes de um paradigma indiciário'. In: Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.
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