terça-feira, 24 de novembro de 2009

Análises e estatísticas das Relações Raciais no Brasil

Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER) disponibiliza na internet análises, dados, estátisticas, relatórios, econômicos, históricos e sociais com foco nas questões raciais e de gênero.
O LAESER é coordenado pelo professor Marcelo Paixão e está integrado ao Instituto de Economia da UERJ.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Modelo de Pré-projeto de pesquisa

A pesquisa é uma atividade teórica, racional e tem um formato de atividade intelectual planejada. O pré-projeto é a primeira atividade de planejamento. Sua finalidade é gerar uma ou mais hipóteses, a partir de um tema. Este tema anuncia uma necessidade humana qualquer, mas é a percepção e problematização dessa necessidade que torna a reflexão uma pesquisa.
Segundo a professora Cristina de Cássia Moraes, o projeto é uma proposta teórica prévia , formulada a respeito de determinado assunto. É  a previsão de todas as etapas da pesquisa.Este deve responder ao seguinte conjunto de questões: O quê?  Por quê?  Para quê? Para quem? Onde? Como? Com quê?  Quando?  Quem?  Com quantos?
Não existe um modelo padrão, dependendo da perspectiva adotada por cada curso de graduação ou pós-graduação. Assim segue um modelo possível:




JUSTIFICATIVA: 

Menciona-se a pretensão do trabalho e seu valor nos seguintes aspectos: 


RELEVÂNCIA CIENTÍFICA: O que essa pesquisa pode acrescentar à ciência? 


RELEVÂNCIA SOCIAL: Que benefício pode trazer à comunidade? 


INTERESSE: O que levou à escolha do tema? 


VIABILIDADE: Quais as possibilidades concretas desta pesquisa? 




DELIMITAÇÃO E ENUNCIADO DO PROBLEMA:



Situá-lo no tempo e no espaço, localizando as fontes de origem; 


O problema deve ser formulado de forma interrogativa; 


O problema deve ser claro e preciso.; 


O problema deve ser delimitado a uma dimensão viável 




FORMULAÇÃO DE HIPÓTESE: 



Idéia geral a ser comprovada no decorrer da pesquisa; 


São respostas provisórias, anteriores à pesquisa 


Deve ser fundada em conhecimento prévio; 


Deve ser verificável; 


É formulada por uma afirmação; 




ELABORAÇÃO DOS OBJETIVOS: 



Os objetivos representam o ponto de chegada em relação ao teste da hipótese e indicam o que é pretendido com o desenvolvimento da pesquisa. 


Objetivo geral: significa traçar as principais metas que nortearão a pesquisa; 


Objetivos específicos: cada objetivo específico atinge um ponto de vista do tema, um ângulo a ser pesquisado 




DEFINIÇÃO DA METODOLOGIA: 



Representa a descrição formal dos métodos e técnicas a serem utilizados na pesquisa. Define os seguintes aspectos: 


O caminho a ser percorrido: métodos de abordagem e método de procedimentos; 


Os instrumentos de pesquisa a serem utilizados; 


Delimitação do universo da pesquisa; 


Delimitação e seleção da amostra 




REFERÊNCIAS TEÓRICAS: 



Exige capacidade de elaboração própria e espírito crítico; 


Contribui com informações inovadoras , acrescentando algo novo ao conhecimento já existente; 


Requer um levantamento bibliográfico cuidadoso, para analisar as contribuições já expressas acerca do assunto, capazes de esclarecer o fenômeno investigado. 




CRONOGRAMA: 



É a previsão do ritmo de desenvolvimento da pesquisa, esclarecendo acerca do tempo necessário para cada uma das fases 




PREVISÃO DE RECURSOS: 



Levantar e arrolar os recursos materiais e humanos indicando a proveniência dos mesmos 


REFERENCIAS 
Conforme as normas da ABNT 6023 - http://www.ifcs.ufrj.br/~aproximacao/abntnbr6023.pdf




SANTOS, Antonio Raimundo. Metodologia Científica: a construção do conhecimento. 5ª Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

Jacek Yerka

A pintura que ilustra o blog é do pintor polonês Jacek Yerka, nascido em Varsóvia em 1952. Para conferir mais sobre este criador de mundos veja: http://www.yerkaland.com/

sábado, 2 de maio de 2009

Nova História Cultural

Segundo Lynn Hunt a História Cultural estabelece uma nova forma de trabalhar a cultura.
"Trata-se, antes de tudo, de pensar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo." (PESAVENTO, 2003, p. 15)
Neste caso o que os historiadores do cultural fazem é interpretar estes significados a partir de determinados cojuntos de valores e perspectivas estabelecidas pelo presente, em geral lançam mão de determinadas noções como representação, imaginário, sensibilidades. 
Há com a História Cultural um rompimento com as certezas metodológicas da escola dos annales. Através do abandono do projeto de história total, da definição territorial do objeto e da primazia atribuída às divisões sociais.
Para Pesavento a História Cultural estabelece uma perspectiva que coloca em dúvida a própria coerência do mundo.

(...) A História se faz como resposta a perguntas e questões formuladas pelos homens em todos os tempos. (...) explicação sobre o mundo, reescrita ao longo de gerações. O historiador explica, em esforço retórico e pedagógico, imprimindo sentidos ao seu discurso. Na busca de construir uma forma de conhecimento sobre o passado, o historiador dá a ler este passado, decifrando-o e dotando-o de uma inteligibilidade. O trabalho da História é sempre o de dar a ver um Outro, resgatando uma diferença. (PESAVENTO, Idem, p. 59)

Para Pesavento a História seria uma ficção controlada pois este Outro construído através do discurso histórico é percebido através de certas operações mentais que lidam com "a comparação e a analogia, com a diferença e a inversão, com o inusitado" (Idem, p. 61). Este processo seria submetido à testagem dos indícios recolhidos e que sustentam um regime de verdade que visa estabelecer plausibilidade. A História seria assim uma ficção pela recorrência ao extratexto.

A partir desta transformação epistemológica poderemos pensar em algumas estratégias do fazer História, Sandra Pesavento nos chama a buscar um método. Porém, o que ela faz é apresentar métodos possíveis para esta História Cultural; busca as estratégias do fazer história cultural nos trabalhos do antropológo Clifford Geertz, a descrição densa; no paradigma indiciário, da micro-história de Carlo Ginzburg; além do método da montagem de Walter Benjamin. 
Na antropologia de Geertz o que sobressai é a interpretação. Para este antopológo a cultura é como uma gramática que deve ser lida em todos seus aspectos. Uma antropologia interpretativa, hermenêutica é o que nos legou Geertz (Para uma biografia rápida veja: http://monitoresantropologia.blogspot.com/2007/08/clifford-james-geertz.html).
O método geertziano segundo Pesavento contribui para que possamos "explorar as fontes nas suas possibilidades mais profundas, fazendo-as falar e revelar significados"(Idem, p. 66). Através da descrição densa o historiador poderá explorar todas as possibilidades interpretativas, ao aprofundar a análise do mesmo, relida através de um intenso cruzamento de outros elementos que deverão ser observados no contexto e fora dele.
Com Carlo Ginzburg o paradigma indiciário fornece da mesma forma um método interpretativo "centrado sobre resíduos, sobre os dados marginais, considerados reveladores (...) pormenores normalmente considerados sem importância, ou até triviais, "baixos", forneciam a chave para aceder aos produtos mais elevados do espírito humano" (GINZBURG, 1989, pp. 149-150). Esse paradigma uniria aspectos dos saberes do caçador, do detetive, do médico e do crítico de arte. O saber de tipo venatório que ensina ao historiador a farejar, registrar, interpretar e classificar "pistas infinitesimais", inferindo as causas a partir dos efeitos. O saber conjetural, que estabelece um conhecimento indireto, através de indícios aos quais o historiador inquire em busca do sentido. Assim, movido pela suspeita o historiador enfrenta o passado com atitude dedutiva, não se atendo ao primeiro plano, ao visível, mas procura nos detalhes elementos reveladors de fenômenos gerais: "a visão de mundo de uma classe social, de um escritor ou de toda a sociedade" (GINZBURG, Idem, p. 178). Tal paradigma indiciário, não possui regras passíveis de formalização ou de serem ditas, pois segundo Ginzburg o que entra em jogo são alguns elementos imponderáveis: faro, golpe de vista, intuição.
Por fim, dentro da tentativa de buscar um método, Pesavento nos remete a Walter Benjamim e seu método da montagem. Constituída pela ensaística cinematográfica que Benjamim desenvolveu, cujo artíficio mais importante foi a fusão de duas imagens, onde ao trabalhar com a opacidade e a transparência, buscou revelar o que foi apagado. Seu método se opõe ao método historicista, e se define como materialista histórico, é o método dialético, sob o qual o passado deveria ser fixado através do presente, estabelecendo uma síntese (despertar a consciência) das imagens de sonho que encerravam a antíntese (imposições e proposições que o sistema capitalista quer nos fazer desejar)  e tese (aquilo que desejamos). Das ruínas e escombros do passado, dos custos do progresso emergem a história dos excluídos, dos perdedores, justamente da mercadoria, o produto final da exploração capitalista, seria resgatado os sonhos das gerações passadas massacradas pelo sistema do mercado consumidor. 
Em linhas gerais, essas diversas estratégias apresentadas aqui a partir da proposta de Pesavento possibilitam perceber a amplitude e relatividade da metodização histórica, cabendo a cada pesquisador escolher e sobretudo desenvolver seu método de análise a partir do diálogo entre suas hipóteses e as evidências com as quais trabalha. Assim, o método não deve ser visto como algo fixo, mas sim uma construção dialógica e definida durante o trabalho de pesquisa.



Referência:

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

GINZBURG, Carlo. 'Sinais: raízes de um paradigma indiciário'. In: Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.


Unidade do Método Histórico

Jörn Rüsen procura estabelecer uma unidade do conhecimento histórico, tentemos seguir sua argumentação através destas citações do texto Reconstrução do passado: Teoria da História II:os princípios da pesquisa histórica.

“(...) A pesquisa é o passo metodicamente regulado, e por isso intersubjetivamente controlável,das respostas possíveis às reais.

A pesquisa é o trabalho de responder empiricamente às perguntas históricas.

(...) A elaboração de questionamentos produtivos e hipóteses complexas de trabalho pertencem à pesquisa”(p. 105).

A delimitação do campo de operações do conhecimento histórico passa pelo “critério da referência operacional à experiência”

“(...) as informações são elaboradas e ponderadas em relação direta com o testemunho empírico do passado – o que, quando, onde, como e por que foi o caso”. (p. 106)

“(...) São as perspectivas teóricas sobre o passado humano que decidem o tipo de informação a ser extraído das fontes, e em que medida isso vai acontecer”.(p. 107)

São as regulações metódicas que possibilitam a unidade do conhecimento histórico. Estas regulações são: a formal, a material e a funcional.

Regulação formal – sincronização do progresso cognitivo com a ampliação das perspectivas. (...) de uma hipótese questionadora resulta um saber empírico material (sempre passível e capaz de aperfeiçoamento). Ela compõe a estrutura de uma história;

Regulação Material – “(...) A multiplicidade das experiências reais do passado humano é integrada, por meio da abordagem teórica do todo das experiências possíveis do passado, naunidade de uma estrutura categorial [CRITÉRIOS DE SENTIDO].” (p. 109)

“(...) [Neste sentido] é determinante a identidade respectiva dos destinatários (potenciais), a quem são dirigidas as histórias cujos conteúdos são garantidos pela pesquisa.

Materialmente (...) a unidade do conteúdo histórico, na multiplicidade dos vários procedimentos de pesquisa, é assegurada porque o progresso do conhecimento é dirigido para o movimento de reforço da identidade.

É por causa desse reforço que a pesquisa é posta em ação.

Regulação Funcional – orientação da vida humana prática mediante representações do passar do tempo.

Rüsen afirma que o conhecimento histórico pode ser definido como processo, uma vez que se entenda as histórias como respostas a perguntas e que se possa analisar o procedimento regulado, que leva das perguntas às respostas. São três as fases principais desse procedimento:

Formulação da pergunta histórica – carências de orientação no tempo são enunciadas como perguntas históricas.

Direcionamento às fontes – obter destas as informações necessárias para responder as perguntas.

Formação da resposta histórica – formular as informações obtidas das fontes como respostas às perguntas postas.

Nosso autor ainda define alguns aspectos procedimentais e operacionais que regulam a pesquisa histórica:

Heurística – procedimento de coletar, juntar de forma sistemática, de classificar as fontes relevantes, além do exame de seu potencial informativo (questionamento histórico; estabelecimento de hipóteses ainda não existentes) – o que se pode saber;

Crítica – exame dos dados históricos sobre a verdade da ação humana no passado que se orienta por critérios de plausibilidade do potencial informativo das fontes (que dados devem ser buscados) – Autenticidade, qualidade, estruturas de veracidade;

Interpretação – compreensão, explicação a partir de perspectivas teóricas com foco nas condições e conseqüências do que foi o caso. Eleva os dados do passado à condição de fatos históricos. Tornando compreensíveis os passos operativos da pesquisa, através de sua origem teórica.

O autor ainda afirma que:

“(...) O que o pesquisador aborda e obtém das fontes, como conteúdo específico do movimento histórico nas mudanças temporais do homem e de seu mundo, não é uma questão de método, mas sim de teoria.

As premissas teóricas... têm todavia conseqüências metodológicas.

Elas definem tipos de procedimento metódico no contexto processual de heurística, crítica e interpretação." (p. 114)

Preocupado em estabelecer uma unidade metodológica do conhecimento histórico Rüsen define as estratégias de pesquisa, lançando mão de uma proposta dialética, entre as estratégias hermenêutica e analítica:

Hermenêutica – consiste na reconstrução de processos temporais do passado de acordo com perspectivas de sentido coerentes com as intenções dos atores(agentes ou pacientes) desses processos.

Fatores implícitos de consciência – sentido, identidade (tradição).

A questão gira em torno de fatos que possuem qualidades de compreensibilidade.

Tal estratégia ocupa cada vez mais espaço na produção do conhecimento histórico:temáticas do cotidiano, das mentalidades e do imaginário.

Para aprofundamento na questão hermenêutica veja Gadamer: http://www.scribd.com/doc/7248385/Gadamer-HansGeorg-Verdade-e-Metodo-I

Analítica - reconstrução dos processos temporais do passado de acordo com as perspectivas dos contextos de causalidade, que decorrem das condições estruturais sob as quais os sujeitos ao agir e sofrer (co-)produzem tais processos.

É uma forma oposta a hermenêutica.

Lida com os círculos conjunturais.

A História é entendida como coação, que os atingidos devem seguir para que possam viver.

A questão gira em torno de sistemas complexos e estruturas econômicas e burocráticas.

O que está em jogo é o sistema, a totalidade, o método holista e não a intenção dos atores do sistema.

Para um exemplo de método analítico veja: http://www.scielo.br/pdf/rep/v25n4/28287.pdf

Dialética – relação de mútua influência entre as duas anteriores

essa mediação estrutura, pois, a multiplicidade das várias abordagens metódicas das fontes na unidade “do” método histórico.

essa estruturação integra, então, substantivamente, os diferentes campos da experiência de uma unidade constitutiva de identidade.

Referência:

RÜSEN, Jörn. Reconstrução do passado: Teoria da História II: osprincípios da pesquisahistórica. Trad. Asta-RoseAlcaide. Brasília: Ed. daUNB, 2007.

Matriz Disciplinar ou Paradigma da História enquanto Ciência

A pesquisa é (...) o processo no qual se obtém, dos dados das fontes, o conhecimento histórico controlável. (RÜSEN, 2007, p. 104)
Através deste diagrama o alemão Jörn Rüsen tenta definir a matriz disciplinar da história através dos fatores ou princípios do pensamento histórico que são determinantes da "ciência da história como disciplina especializada".
Tais fatores e princípios se relacionam em um caminho que vai das carências de orientação na "vida prática", que se constituem enquanto os interesses para se construir uma história; se efetivando enquanto ciência especializada através das idéias, que são as perspectivas orientadoras das experiências do passado, os "critérios de sentido", que são manipuladas para interpretar o passado; em terceiro lugar, temos os métodos,  que enquanto regulação do pensamento histórico, possibilitam a inclusão da experiência concreta, constituindo assim o processo do conhecimento histórico, pois, sem fontes não faria sentido a história; finalizando o aspecto de constituição da história enquanto ciência especializada, temos as formas de apresentação, que seriam o produto da pesquisa histórica, enfim, a historiografia, cujo paradigma é a narrativa; este produto da pesquisa histórica, porém, teria funções de orientação na vida prática, retornando assim para onde iniciou ou seja, aos interesses cognitivos da vida prática, que são desencadeados pelas carências de orientação. 
Ou seja, há um diálogo constitutivo da matriz disciplinar da história que se estabelece entre a vida prática e a ciência especializada e que deve ser levado em conta ao refletirmos sobre as pretensões de racionalidade da História. 
Referência:
RÜSEN, Jörn. Razão histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Brasília: Ed. UnB, 2001.

APRESENTAÇÃO

Este blog tem o intuíto de ser um espaço de interação e discussão sobre questões de método da história enquanto disciplina científica.
Não queremos aqui estabelecer ou fixar um método, mas discutir as várias possibilidades metodológicas que se abrem para a pesquisa histórica, sobretudo no âmbito da chamada História Cultural.
Basicamente, o método é uma espécie de caminho a ser seguido para alcançar um determinado conhecimento histórico. Ele se compõe de regras que determinam o caráter científico da história. O método é um dos elementos sem os quais não seria possível construir uma história plausível e sobretudo um conhecimento que se quer verdadeiro a respeito do passado, pois racional e científico. Este caráter é estabelecido porque ao lançar mão de um método o historiador lida com certas abordagens e procedimentos que o conduzem na produção de um conhecimento histórico.
A validade desse conhecimento portanto, é definida pelo método e pela possibilidade de resgate do caminho estabelecido pelo historiador em seu diálogo com o passado - através dos vestígios - na construção de uma história.
Que possamos aqui estabelecer um diálogo enriquecedor para nossa empreitada enquanto historiadores profissionais.